23 de agosto de 2010

Contrariedades

Tudo na vida é antagónico. Se hoje dizes isso, amanhã inevitavelmente dirás aquilo. É difícil delinear uma conduta de vida, é difícil seguir um caminho sem fazer desvios. Mas antes de escolhermos qualquer trilho, devemos ter clarificada uma base, uma estruturação dos nossos princípios, das nossas crenças e, muito importante, dos nossos limites. Só a partir dessa base é que podemos fazer as escolhas com que nos deparamos no dia-a-dia. Não digo que alguns aspectos não possam ser alterados, porque é isso mesmo que fazemos: aprendemos, crescemos, moldamos a nossa existência. Mas duvido que esses desvios se afastem demasiado das ideias iniciais.
Mas não se iludam: esses princípios não surgem assim tão cedo. Ganham-se com a experiência, com o adquirir de conhecimentos e vivências. Uns, por infinitas razões, moldam a sua personalidade, os seus princípios, mais cedo; outros fazem-no mais tarde. Não há uma altura certa, portanto não há que julgar os outros por isso. Diferentes todos somos. É importante saber aprender com a vivência de cada um, saber tirar partido disso, de uma forma positiva, que nos faça crescer, tomar consciência de realidades que desconhecemos e determinarmos o nosso ponto de vista.

Por tudo isto, e muito mais, sempre que virem alguém na mais pura das contrariedades, não julguem, apenas ainda não criou as suas bases.
9/11/09

27 de julho de 2010

Enganos da vida

Temos sempre tantos ideais, tantos objectivos. Criamos demasiadas expectativas em relação à maioria das coisas que acontecem na nossa vida.
E mais do que isso, esperamos sempre o melhor dos outros. Dos que pertencem à nossa vida, dos que acabámos de conhecer e dos que ainda vão surgir.
Às vezes pergunto-me por que o fazemos. No fundo acho que queremos que a outra pessoa seja igual a nós próprios. Queremos que se esforce, queremos que invista na relação, seja ela de qualquer tipo. Isto porque sabemos que um barco não anda sozinho e, portanto, não queremos ser os únicos a remar.
Mas quantas vezes foram as que o barco acabou por se afundar?
Esperamos tanto, idealizamos uma imensidão de coisas e parece que quanto mais o fazemos, maiores são as desilusões que sofremos.
Ao ler isto, não tenho dúvida que cada pessoa vai pensar num amigo que afinal não merecia esse nome, num namorado que demonstrou ser tudo menos o famoso “príncipe encantado”. Enfim…exemplos há-de haver muitos. E cada um de nós tem os seus próprios.
Apesar do quanto custa na altura da “descoberta”, hoje sabemos olhar para trás. Ou pelo menos devíamos saber.
Não se deitam fora relações, pessoas. Elas saem da nossa vida, mas não deixam de pertencer ao nosso passado.
O que temos de saber é a aprendizagem que, de uma maneira ou de outra, ganhámos com elas. Identificá-la por vezes é difícil, mas ao depararmo-nos com situações em concreto, recordamos e percebemos que aprendemos algo.
E os erros são uma constante na nossa vida e mesmo quando não conseguimos remediá-los, aprendemos com eles e sabemos que não os voltaremos a repetir, ou pelo menos fazemos por isso.
Apesar de termos consciência de todas as implicações que isso tem, não deixamos de criar expectativas em relação aos outros, mas acredito que estamos mais de pé atrás.


16/12/08

3 de julho de 2010

Agarro o vazio

Fecho os olhos e não é mais o teu toque que sinto, estico o braço mas já não te consigo alcançar. Partiste. E eu não sei onde ir para te trazer de volta.
As minhas mãos agarram o vazio, as tuas já aqui não se encontram. Se alguém agora as agarra, não o fará de certeza com tanto fulgor como eu o fazia, como eu ainda o faço nos meus momentos de solidão.
Não sei se conseguirás recordar o caminho de volta, só se o tiveres deixado traçado. Eu não o posso seguir: as tuas pegadas já foram apagadas pelo vento, o mesmo que te levou para longe.
Só nos resta uma forma de nos encontrarmos: recordando. Só as nossas memórias ainda se tocam, e nada mais.


7/8/09

29 de junho de 2010

Animalidade

Tudo se resume a uma dança de dois corpos, que se tocam e se consomem, mas que determinam barreiras, limites, dos quais se estabelece uma distância.
Não se entrega mais do que o corpo, a alma fica fechada e da chave só há um exemplar.
Dá-se vida aos instintos, e a animalidade predomina sobre aquilo que nos distingue: a racionalidade.
Não há junção de mais do que fluidos corporais e após a fome saciada não fica a restar nada.
Não há palavras a dizer, olhares a trocar. O trabalho está feito e o corpo agora pesa.
É fechar os olhos e esperar pelo próximo.


18/6/09

19 de junho de 2010

Escolhe outro trilho

Muitas vezes o preço que se paga em ser diferente é demasiado alto. Perdem-se oportunidades, perdem-se pessoas, perdem-se momentos, perdem-se experiências. Pode haver recompensa, há, eu sei que há, mas há momentos em que isso não parece suficiente.
Há momentos em que o tempo parece escassear e a vida andar demasiado devagar, com poucos desenvolvimentos importantes. Aí apetece-nos correr atrás de todos os outros, deixar-nos ir, ser o que toda a gente é, sem nos importarmos com a marca que deixamos.
Mas isso são devaneios, são instantes de fraquejo que, mais tarde, orgulhamo-nos de não os ter seguido. Porque só mais tarde podemos perceber qual a recompensa de todo o nosso esforço e de toda a coragem de seguir outro caminho.
É preciso determinação, sem dúvida. Talvez seja por isso que pouca gente o faz: é tão mais fácil baixar os braços e simplesmente seguir as pegadas já pisadas.
Mas aí não estamos a deixar a nossa marca, estamos apenas a seguir o caminho que alguém antes de nós traçou e que, provavelmente, já foi pisado por muitos mais.
O que parece que se perde num dia em escolher um caminho diferente é depois encarado como um grande ganho na nossa vida e um passo importante na nossa experiência.
Não é o medo que tem que persistir, é o orgulho!


16/6/09

17 de junho de 2010

Não cortes ainda

As tuas palavras chegam mais longe do que eu pensaria ser possível, do que eu tencionava deixar. Passam o domínio do consciente, da racionalidade, por vezes até do suportável.
As palavras estão gastas. Olho à minha volta e vejo que estão. Mas eu continuo a senti-las como da primeira vez. Continuo a deixar que cheguem ao mais fundo possível.
Não sei se as dizes como eu as entendo, não sei se é a minha própria mente que as acaba por distorcer. Mas a verdade é que tocam. A verdade é que prendem.
É assim que ainda me sabes prender. É assim que ainda consegues manter aceso o que quer que isto signifique.
Não te pergunto por significados, porque enquanto tiver apenas o meu entendimento, e não uma explicação, a minha imaginação pode chegar até onde eu a deixar.

No dia em que me cortares as asas, então aí eu assento os pés.


2/10/09

Sentar e ouvir a mente

E se eu disser que me apetece sentar e cruzar os braços? Será que me deixam?
As correntes amarram-nos mesmo às coisas insignificantes da vida, e quando me pergunto se me posso desprender de alguma delas, há sempre “alguém” que me responde negativamente. Mas porquê? Porque não posso simplesmente sentar-me e ficar a observar o mundo à minha volta?
É implícito que temos que andar sempre numa correria, que temos que ter sempre imensas coisas para fazer. Não trabalho, não tenho filhos, não tenho nem meia dúzia de obrigações. Então porque não posso parar? Obrigam-me a correr atrás de quem já corre, e não é nenhuma espécie de fuga, é simplesmente um caminho que está traçado e se percorre todos os dias. Esperem, tive um lapso: afinal é uma fuga. É uma fuga dos pensamentos, é uma forma de evitar cada memória e cada imaginação que possa ser criada na nossa mente. Mas quem disse que a nossa mente pára de trabalhar? Não pára, e se os pensamentos não chegam durante o dia, chegam à noite. Algum dia chegam. Evitamos hoje, amanhã sentimos.
Só quero parar de os evitar. Quero sentir. Quero relembrar e quero sonhar.
E sim, vou-me sentar e ouvir a minha mente, e quando ela não tiver mais nada a dizer então olho à minha volta e arranjo-lhe mais algumas ideias. Se me vierem dar a mão para me levantar, eu digo que simplesmente quero ali ficar.
Deixo que se juntem a mim, não tenham medo de sentir. Não é preciso racionalizar e muito menos exteriorizar. Não tem que haver qualquer espécie de explicação.
A imaginação voa por si.


1/10/09